Desenterrando escritos da gaveta de cartas não-enviadas que encontrei esta (meia-carta), datada de julho de 2009.
- Sim, está frio. Mas me refiro àquela quarta dimensão, que antes parecia existir somente para os estudos da física. Explico:
O fato é que hoje acordei e escutei algo atrás de minha porta. Foi quando notei a sutil presença dele ali, me espiando. E quando viu que havia sido descoberto, riu. O Tempo riu de cara lavada e com um ar cínico.
Você teria medo se um dia estivesse de cara com o Tempo? Porque acho que a maioria das pessoas o confunde com os anos e o teme pelas rugas e cabelos grisalhos que demonstram a idade. Pois eu te digo que o encarei e vi coisa muito maior! Como se, até então, estivesse esperando ansiosamente por ele ou alguma outra entidade – qualquer! A fé existia, só não se sabia em que? - que me trouxesse você. Existiu um momento em que, de tão perto, conseguia distinguir o seu perfume, mas nele, exatamente nesse momento, veio o Tempo e misturou todas as peças, puxou o tapete, deixou(-nos) sem chão. Esperava sentir raiva, esmurrar, gritar contra aquela Criatura os mais baixos palavrões, só que antes - como sempre ágil - a Criatura sorriu. Imagine: o Tempo com um sorriso confortante no rosto e eu parada, perdida, todavia calma.
Hoje o tempo já é um velho amigo: a calma é inevitável quando na sua presença. Tenho fé na Criatura e canto junto com Caetano: 'Tempo, tempo, tempo, compositor de destinos'.
